NAVEGAR EM ÁGUAS TURVAS, Omissão na história da BD Portuguesa

A retórica sazonal que o amadorismo dos Prémios Nacionais de Banda Desenhada suscita poderia indicar uma característica exclusiva à última dezena de anos, contudo é já de longa data a navegação da BD nacional em águas pouco cristalinas.
De facto, subsiste uma História oculta da banda desenhada portuguesa, aquela que poucos contam. Uma cronologia feita por meias verdades e desmemórias, comentada há quatro décadas e explicada, em parte, devido à maioria do debate bedéfilo ter sido realizado pelo crítico, pelo membro de órgão associativo ou colecionador, tendo como premissa o conceito imaterial de “arte” onde se menospreza o facto de os autores necessitarem de dinheiro para comer.



Existe uma geração de autores portugueses de banda desenhada que foi completamente esquecida pelos divulgadores da nona arte. Foram pioneiros na produção de histórias descomplexadas, tinham uma razoável visão do panorama nacional e estrangeiro da BD e publicaram em fanzines1 de forma completamente amadora, durante a primeira metade da década de 1980.

Sulcaram águas desconhecidas para Portugal, seguindo mapas francófonos traçados por autores como Druillet, Moebius, Benoit, Bilal, Clerc ou Loustal. Mas a navegação era enganadoramente calma e os portos que prometiam destinos, impediam-nos de ancorar. Eternamente amadores, à mercê dos “connoisseurs” da bedófilia para os quais o tempo tinha parado na época do Cavaleiro Andante, a sua capacidade de flutuar vinha com um prazo limite.

Esta geração, em 1979, era considerada demasiado nova para ser levada a sério (perante os desenhadores mais amadurecidos nos anos 50/60, na prática profissional das artes gráficas). Já seria, porém, demasiadamente velha, em 1985, para ser citada (em comparação com os novos nomes que começavam a surgir nos festivais. São exemplo deste grupo de “juvenis idosos”, cuja fase produtiva parece ter sido espartilhada entre as datas de 1979 e 1984, Ajóta, Chico Lança, Filipe Abranches, Gibat, Nuno Beirão/J. Pitágoras, J.P. Vilanova, Luís Nunes, Paulo Nisa, Manuel Gantes, Pedro Morais, Penim/Leo Macário, Ruca, Rui Chaves, Rui Real.

A geração 80 – como foi denominada por Jorge Colombo2 – assumiu naturalmente que a BD não é um género menor, dirigindo-a ao público adulto. Apesar de claramente principiantes e carentes de alguma maturidade gráfica, atiraram-se no frenesim da publicação em offset ou em fotocópias. Muitas destas edições (frequentemente autoedições) constituíram marcos ímpares na divulgação da nova BD; é o caso do Ritmo, Ruptura, Hamburguer, Crocão, ou mesmo do Boletim do Clube Português de Banda Desenhada.

Os autores com obras cronologicamente anteriores, como os clássicos José Garcês e José Ruy, o revivalista Augusto Trigo ou mesmo o caso isolado de Fernando Relvas, tinham entrado no “ancoradouro” das publicações, sendo já minimamente conhecidos, ao passo que Leo Macário ou Pedro Morais eram completamente desconhecidos. Mesmo assim, com menos de vinte anos de idade, conseguiram o feito inédito de publicar bandas desenhadas na revista Tintin3.

A chamada "geração de 80" existiu numa época em que se findava um ciclo. Apesar de uma nova perspectiva estética e conceptual grassar na BD europeia e americana desde meados dos anos 70, influenciando jovens desenhadores e criadores ocidentais, a verdade é que a nona arte foi cedendo lugar a novas abordagens representativas. Esse contexto teve uma relação direta no meio editorial da BD em Portugal pois durante a década de 80 desapareceram algumas das mais importantes publicações periódicas portuguesas.

Até 1984, nenhum destes autores teria um álbum editado. Longe que estava a era da internet, seriam os fanzines o seu único meio de difusão, onde surgiam desenhadores com estilos distintos e que - devido à circunstância de serem amadores e pouco divulgados - eram por definição “independentes” e “alternativos”, dois termos que viriam a tornar-se populares nas décadas seguintes, quando esta classificação se transformaria subitamente na visão redutora de alguns.

Durante os breves anos de navegação nas águas da banda desenhada, todo o esforço destes jovens autores na participação em exposições teve como consequência o extravio das suas pranchas originais. Olhavam com admiração a luz do Fernando Relvas, que parecia ser um farol, mas que nunca teve vocação de guia para o profissionalismo e era tudo menos boia de salvação.
Acabariam, na sua esmagadora maioria, por se afastar4 da banda desenhada. Apenas alguns se mantiveram visíveis, os restantes evaporaram-se das memórias bedéfilas como se nunca tivessem existido.

Ao examinar os hodiernos textos que contam a história da BD portuguesa, desde a mais sintética resenha cronológica até à narrativa enciclopédica - salvo raras exceções – todas omitem esta geração. Invariavelmente empolam a importância da pré-história com Bordalo Pinheiro e Stuart Carvalhais. Pormenorizam, exaustivamente, a produção dos anos 40 com Vítor Péon e Teixeira Coelho. Citam fugazmente o período pós 25 de Abril com a Visão referindo Vítor Mesquita ou Isabel Lobinho, saltando de imediato para a década final do séc. XX e primórdios do XXI, com os salões e festivais oficiais de BD, onde surge António Jorge Gonçalves ou Rui Lacas.

No fundo é como contar a história de Portugal narrando em pormenor a presença romana, visigótica e árabe, à qual se segue a proclamação da república e os consequentes acontecimentos até ao presente. Sem qualquer referência ao reino, de Afonso Henriques a Manuel II.
Falta um pedaço da história. Por falta de pesquisa na disciplina da narrativa gráfica ou devido à inércia da doutrina vigente de abordagem histórica da BD portuguesa, o período dos anos 80 encontra-se, de facto, insuficientemente investigado.

Como nunca foi um movimento de autores mas de críticos, foi construída uma cronologia muitas vezes abstrata, onde os autores são selecionados posteriormente para serem editados como representantes de um movimento, esquecendo aqueles não encaixavam nesse protótipo, nos contornos estilísticos ou nos critérios pessoais.

Podemos opinar que esta geração de autores era composta por marujos de água doce. Arrumaram os remos, acabaram os seus cursos e arranjaram uma moça. Porém esta problemática é fundamental e continua a subsistir sem que as lições do passado sejam apreendidas, onde o que foi amadorismo no passado volta a ser no presente.
Acredita-se que a justa (e incompleta) homenagem aos autores da geração 80 que constitui o panorama das obras publicadas de 1979 a 1984 pode revelar uma área potencial para investigação. Desafia-se, deste modo, os estudiosos e divulgadores da Banda Desenhada para esta problemática que vem preencher parcialmente um nicho de estudos ainda incipiente em Portugal.


  1. Alguns dos mais influentes fanzines publicados pela geração 80:
    Ensaio (nº1, 1979): Gibat, Portimão. Stylus (nº1, 1979): Lucap. Crocão (nº1, 1980): Paulo Veríssimo, Rui Chaves, Odivelas. Original (nº1, 1980): Ferman, Gibat, Portimão. Ritmo (nº1, 1981):Carlos Pedro (Casa da Cultura da FAOJ), Faro. Ruptura (nº1, 1980): Paulo Félix (Centro de Difusão da BD), Vila Nova de Tazem. Hambúrguer (nº1, 1981): José Kiski, Nuno Nisa (Associação de Estudantes do IST), Lisboa. Calypso (nº1, 1981): (Núcleo de BD da Casa de Cultura da FAOJ), Évora. Códradinhos (nº1, 1983): Carlos Afonso, Gibat (Casa da Cultura da FAOJ), Faro. Amargem (nº1, 1984): Carlos Dias, Carlos Pancadas, Emanuel Ramiro, Paulo Aleixo, Montijo. 

  2. COLOMBO, Jorge Gonçalves – São novos, meu senhor… Tintin. Nº 36, 14º ano (Jan 1982), p. 6-8 e 33. 

  3. Enunciação de todos os autores da geração 80 publicados na revista Tintin no Bloge Colecionador de BD. 2014 [Acedido a 3 de Dezembro de 2017]. Disponível na internet: link 

  4. LINO, Geraldes - Concursos de BD, Subsídios para um estudo. Lisboa: 2009 [Acedido a 12 de Agosto de 2014]. Disponível na internet: link